A finalidade deste Blog é divulgar as Vozes do Céu através das Mensagens dos Sagrados Corações de Jesus,Maria,José e do Divino Espírito Santo,dos Anjos e dos Santos,transmitidas ao Vidente Marcos Tadeu,nas Aparições de Jacareí-SP/Brasil. São as mais intensas,extraordinárias e últimas Mensagens dadas ao mundo para que se converta e tenha paz.Nestas Santas Aparições São José deseja que nos Consagremos a Ele ,que o invoquemos como Amantíssimo Coração de São José e também como
CORAÇÃO PATERNAL DE SÃO JOSÉ,para que Ele possa nos conduzir pelo caminho da Santidade e nos leve ao verdadeiro Amor a Jesus e Maria.

terça-feira, 24 de março de 2015

A agonia de Jesus - Por Santo Padre Pio





Espírito Divino iluminai a minha inteligência, inflamai o meu coração, enquanto medito na Paixão de Jesus. Ajudai-me a penetrar nesse mistério de amor e sofrimento do meu Deus, que, feito homem sofre, agoniza, morre por mim. 

Ó Eterno, ó Imortal, descei até nós para sofrer um martírio inaudito, a morte infame sobre a cruz no meio dos insultos, de impropérios e ignomínias, a fim de salvar a criatura que o ultrajou e continua a atolar-se na lama do pecado.
O homem saboreia o pecado e, por causa do pecado, Deus está mortalmente triste; os tormentos duma agonia cruel fazem-no suar sangue!...
Não, não posso penetrar neste oceano de amor e de dor sem a ajuda da vossa graça, ó meu Deus. Abri-me o acesso à mais íntima profundidade do coração de Jesus, para que eu possa participar da amargura que o conduziu ao Jardim das Oliveiras, até às portas da morte — para que me seja dado consolá-lo no seu extremo abandono. Ah! Pudesse eu unir-me a Cristo, abandonado pelo Pai e por Si próprio, a fim de expirar com Ele!
Maria, Mãe das Dores, permiti que eu siga Jesus e participe intimamente da sua Paixão e do seu sofrimento!
Meu Anjo da guarda velai para que as minhas faculdades se concentrem todas na agonia de Jesus e nunca mais se desprendam... No termo da sua vida terrestre, depois de se nos ter inteiramente entregue no Sacramento do seu amor, o Senhor dirige-se ao Jardim das Oliveiras, conhecido dos discípulos, mas de Judas também. Pelo caminho ensina-os e prepara-os para a sua Paixão iminente convida-os, por Seu amor, a sofrer calúnias, perseguições até à morte, para os transfigurar à semelhança dele, modelo divino. No momento de começar a sua Paixão amaríssima, não é nele que pensa; pensa em ti.
Que abismos de amor não contém o seu Coração! A sua Santa Face é toda tristeza, toda ternura. As suas palavras jorram da profundidade mais íntima do seu coração, e são todas palpitação de amor.
— Ó Jesus, o meu coração perturba-se quando penso no amor que vos obriga a correr aoencontro da vossa Paixão. Ensinastes-nos que não há amor maior que dar a vida por aqueles a quem se ama. Eis que estáis prestes a selar estas palavras com o vosso exemplo.
No Jardim da Oliveiras, o Mestre afasta-se dos discípulos e só leva três testemunhas da sua Agonia: Pedro, Tiago e João. Eles, que o viram transfigurado sobre o Tabor, terão força para reconhecer o Homem-Deus neste ser, esmagado pela angústia da morte?
Ao entrar no Jardim disse-lhes: “Ficai aqui! Velai e rezai para não cairdes em tentação. Acautelai-vos, porque o inimigo não dorme. Armai-vos antecipadamente com as armas da oração para não serdes surpreendidos e arrastados para o pecado. É a hora das trevas”. Tendo-os exortado, afastou-se à distância de uma pedrada e prostrou-se com a face emterra. A sua alma está mergulhada num mar de amargura e extrema aflição. É tarde. Na lividez da noite agitam-se sombras sinistras. A Lua parece injetada de sangue. O vento agita as árvores e penetra até aos ossos. Toda a natureza como que estremece de secreto pavor!
Ó noite, como nunca houve outra semelhante.
Eis o lugar onde Jesus vem orar. Ele despoja a sua santa Humanidade da força à qual tem direito pela sua união com a Divina Pessoa, e mergulha-a num abismo de tristeza, de angústia, de abjeção. O seu espírito parece submergir-se...
Via antecipadamente toda a sua Paixão.
Vê Judas, seu apóstolo tão amado, que o vende por alguns dinheiros. Ei-lo a caminho de Getsêmani, para o trair e entregar! Todavia, ainda há pouco não o alimentou com a sua carne, não lhe deu a beber o seu sangue? Prostrado diante dele, lavou-lhe os pés, apertou-os contra o coração, beijou-os com os seus lábios. Que não fez ele para o reter à beira do sacrilégio, ou pelo menos para o levar a arrepender-se! Não! Ei-lo que corre para a perdição... Jesus chora. Vê-se arrastado pelas ruas de Jerusalém onde ainda há alguns dias o aclamavam como Messias. Vê-se esbofeteado diante do sumo-sacerdote. Ouve os gritos: À morte! Ele, o autor da vida, é arrastado como um farrapo de um para outro tribunal. O povo, o seu povo tão amado, tão cumulado de bênçãos, vocifera contra Ele, insulta-o, reclama aos gritos a sua morte, e que morte, a morte sobre a cruz. Ouve as suas falsa acusações. Vê-se flagelado, coroado de espinhos, escarnecido, apupado como falso rei.
Vê-se condenado à cruz, subindo ao Calvário, sucumbindo ao peso do madeiro, trêmulo, exausto...
Ei-lo chegado ao Calvário, despojado das roupas, estendido sobre a cruz, impiedosamente trespassado pelos pregos, ofegante entre indizíveis torturas... Meu Deus! Que longa agonia de três horas, até sucumbir no meio dos apupos da gentalha, ébria de cólera!
Ei-lo com a garganta e as entranhas, devoradas por sede ardente. Para estancar essa sede, dão-lhe vinagre e fel.
Vê o Pai que o abandona, e a Mãe, aniquilada pela dor.
Para acabar, a morte ignominiosa no meio de dois ladrões. Um reconhece-o, e pôde salvar-se; o outro blasfema e morre réprobo.
Vê Longuinhos, que se aproxima para lhe trespassar o coração.
Ei-la, consumada, a extrema humilhação do corpo e da alma, que separam...
Tudo isto, cena após cena, passa diante dos seus olhos, apavora-o, acabrunha-o
Recusará?
Desde o primeiro instante tudo avaliou, tudo aceitou. Porque, pois, este terror extremo? É que expôs a sua santa humanidade como escudo, captando os ataques da Justiça, ultrajada pelo pecado.
Sente vivamente no espírito, mergulhado na maior solidão, tudo o que vai sofrer.
Para tal pecado, tal pena... Está aniquilado, porque se entregou, ele próprio, ao pavor, à fraqueza, à angústia.
Parece ter chegado ao auge da dor. Está de rastos, com a face em terra, diante da Majestade do Pai. Jaz no pó, irreconhecível, a santa Face do Homem-Deus, que goza da visão beatífica. Meu Jesus! Não sois Deus? Não sois o Senhor do Céu e da Terra, igual ao Pai? Para que haveis de abaixar-vos até perder todo o aspecto humano?
Ah, sim... Compreendo! Quereis ensinar-me, a mim, orgulhoso, que para entender o Céu devo abismar-me até ao fundo da Terra. É para expiar a minha arrogância que vos deixais afundar no mar da agonia. É para reconciliar o Céu com a Terra que vos abaixais até à terra como se quisesseis dar-lhe o beijo da paz...
Jesus ergue-se, volve para o céu um olhar suplicante, ergue os braços, reza. Cobre-lhe o rosto mortal palidez! Implora o Pai que se desviou dele. Reza com confiança filial, mas sabe bem qual o lugar que lhe foi marcado. Sabe-se vítima a favor de toda a raça humana, exposta à cólera de Deus ultrajado. Sabe que só ele pode satisfazer a Justiça infinita e conciliar o Criador com a criatura. Quer, reclama que seja assim. A sua natureza, porém, está literalmente esmagada. Insurge-se contra tal sacrifício. Todavia, o seu espírito está pronto à imolação e o duro combate continua. Jesus, como podemos pedir-vos para sermos fortes, quando vos vemos tão fraco e acabrunhado?
Sim, compreendo! Tomastes sobre vós a nossa fraqueza. Para nos dardes a vossa força, vos tornastes a vítima expiatória. Quereis ensinar-nos como só em vós devemos depositar confiança, até quando o céu nos parece de bronze.
Na sua Agonia, Jesus clama ao Pai: “Se é possível, afasta de mim este cálix”. É o grito da natureza que, prostrada, recorre cheia de confiança ao Céu. Embora saiba que não será atendido, porque não deseja sê-lo, contudo ora. Meu Jesus, por que pedis o que não podeis obter? Que mistério vertiginoso! A mágoa que vos dilacera vos faz mendigar a ajuda e conforto, mas o vosso amor por nós e o desejo de nos levar a Deus vos faz dizer: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”.
O seu coração desolado tem sede de ser confortado, tem sede de consolação. Docemente, Ele levanta-se, dá alguns passos vacilantes; aproxima-se dos discípulos; eles, pelo menos, os amigos de confiança, hão de compreender e partilhar da sua mágoa...
Encontra-os mergulhados no sono. De súbito sente-se só, abandonado! “Simão, dormes?” pergunta docemente a Pedro. Tu, que há pouco me dizias que querias seguir-me até à morte!
Vira-se para os outros. “Não podeis velar uma hora comigo?”. Uma vez mais, esquece os sofrimentos, não pensa senão nos discípulos: “Velai e orai para não cairdes em tentação!”. Parece dizer “Se me esquecestes tão depressa, a mim, que luto e sofro, pelo menos no vosso próprio interesse, velai e orai!”.
Mas eles, tontos de sono, mal o ouvem.
Ó meu Jesus, quantas almas generosas, tocadas pelos vossos lamentos, vos fazem companhia no Jardim da Oliveiras, compartilhando da vossa amargura e da vossa angústia moral. Quantos corações têm respondido generosamente ao vosso apelo através dos séculos! Possam eles vos consolar e, comparticipando do vosso sofrimento, possam eles cooperar na obra da salvação! Possa eu próprio ser desse número e vos consolar um pouco, ó meu Jesus!
* * *
Jesus volta ao local da oração e apresenta-se-lhe diante dos olhos um outro quadro bem mais terrível. Desfilam diante dele todos os nossos pecados, nos seus mais ínfimos pormenores. Vê a extrema vulgaridade dos que os cometem. Sabe a que ponto ultrajam a divina Majestade. Vê todas as infâmias, todas as obscenidades, todas as blasfêmias que mancham os corações e os lábios, criados para cantar a glória de Deus. Vê os sacrilégios que desonram padres e fiéis. Vê o abuso monstruoso dos sacramentos, instituídos por Ele para nossa salvação, e que facilmente podem ser causa de nos perdermos.
Tem de cobrir-se com toda a lama fétida da corrupção humana. Tem de expiar cada pecado à parte, e restituir ao Pai toda a glória roubada. Para salvar o pecador, tem de descer a esta cloaca. Mas, isto não o detém. Vaga monstruosa, essa lama rodeia-o, submerge-o, oprime-o. Ei-lo em frente do Pai, Deus da Justiça, Ele, Santo dos Santos, vergado ao peso dos nossos pecados, tornando-se igual aos pecadores. Quem poderá sondar o seu horror e a sua extrema repugnância? Quem compreenderá a extensão da horrível náusea, do soluço de desgosto? Tendo tomado todo o peso sobre ele, sem exceção alguma sente-se esmagado por monstruoso fardo, e geme sob o peso da Justiça divina, em face do Pai que permitiu ao Seu filho se oferecesse como vítima pelos pecados do mundo, e se transformasse numa espécie de maldito.
A sua pureza estremece diante desta massa infame mas ao mesmo tempo vê a Justiça ultrajada, o pecador condenado... No seu coração defrontam-se duas forças, dois amores. Vence a Justiça ultrajada. Mas, que espetáculo infinitamente lamentável! Este homem, carregado com todos os nossos crimes. Ele, essencialmente Santidade, confundido, embora exteriormente, com os criminosos... Treme como um folha.
Para poder afrontar esta terrível agonia abisma-se na oração. Prostrado diante da Majestade do Pai, diz: “Pai, afasta de mim este cálice”. É como se dissesse: “Pai, quero a tua glória! Quero o cumprimento da tua justiça. Quero a reconciliação do gênero humano. Mas não por este preço! Que eu, santidade essencial, seja assim salpicado pelo pecado, ah! não... isso não! Ó pai, a quem tudo é possível, afasta de mim este cálice e encontra outro meio de salvação nos tesouros insondáveis da tua sabedoria. Porém, se não quiseres, que a tua vontade, e não a minha, se faça!
*  *  *
Desta vez ainda, fica sem efeito a prece do Salvador. Sente a angústia mortal, ergue-se a custo em busca de consolação. Sente como as forças o abandonam. Arrasta-se penosamente até junto dos discípulos. Uma vez mais, encontra-os a dormir. A sua tristeza torna-se mais profunda. E contenta-se simplesmente em os acordar. Sentiram-se confusos? Sobre isto nada sabemos. Só vemos Jesus indizivelmente triste. Guarda para ele toda a amargura deste abandono.  
Mas Jesus, como é grande a dor que leio no teu coração, transbordante de tristeza. Vos vejo afastando-vos dos vossos discípulos, ferido, todo magoado! Pudesse eu dar-vos algum reconforto, consolar-vos um pouco... mas, incapaz de mais nada, choro aos vossos pés. Unem-se às vossas as lágrimas do meu amor e da minha compunção. E elevam-se até ao trono do Pai, suplicando que tenha piedade de nós, que tenha piedade de tantas almas, mergulhadas no sono do pecado e da morte.
Jesus volta ao lugar onde rezara, extenuado e em extrema aflição. Cai, sim, mas não se prostra. Cai sobre a terra. Sente-se despedaçado por angústia mortal e a sua prece torna-se mais intensa.
O Pai desvia o olhar, como se Ele fosse o mais abjeto dos homens.
Parece-me ouvir os lamentos do Salvador:
Se, ao menos as criaturas por causa de quem eu tanto sofro quisessem aproveitar-se das graças obtidas através de tantas dores! Se, ao menos reconhecessem pelo seu justo valor, o preço pago por mim para resgatar e dar-lhes a vida de filhos de Deus! Ah! este amor despedaça-me o coração, bem mais cruelmente do que os carrascos que irão, em breve, despedaçar-me a carne...
Vê o homem que não sabe, porque não quer saber; e blasfema do Sangue Divino e, o que é bem mais irreparável, serve-se desse Sangue para sua condenação.
Quão poucos o hão de aproveitar, quantos outros correrão ao encontro do próprio extermínio!
Na grande amargura do Seu coração, continua a repetir: “Quæ utilitas in sanguine meo? Quão poucos aproveitaram o meu Sangue!
O pensamento, porém, deste pequeno número basta para afrontar a Paixão e morte.
Nada existe, não há ninguém que possa dar-lhe sombra de  consolação. O Céu fechou-se para Ele. O homem, embora esmagado ao peso dos pecados, é ingrato e ignora o seu amor. Sente-se submerso num mar de dor e grita no estertor da agonia: “A minha alma está triste até a morte”.
Sangue Divino, que jorras, irresistivelmente do Coração de Jesus, corres por todos os seus poros para lavar a pobre Terra ingrata. Permite-me que eu te recolha, Sangue tão precioso, sobretudo estas primeiras gotas. Quero guardar-te no cálice do meu coração.
És prova irrefutável deste Amor, única causa de teres sido vertido. Quero purificar-me através de ti, Sangue preciosíssimo! Quero com ele purificar todas as almas, manchadas pelo pecado. Quero oferecer-te ao Pai.
É o sangue do seu Filho Bem-Amado que caiu sobre a Terra para a purificar. É o Sangue do seu Filho que ascende ao Seu trono para reconciliar a Justiça ultrajada. A alegria é na verdade muito mais veemente do que a dor.
Jesus chegou então ao fim do caminho doloroso?
Não. Ele não quer limitar a torrente do seu amor! É preciso que o homem saiba quanto ama o Homem-Deus. É preciso que o homem saiba até que abismos de abjeção pode levar amor tão completo. Embora a Justiça do Pai esteja satisfeita com o suor do Sangue preciosíssimo, o homem carece de provas palpáveis deste amor.
Jesus seguirá pois até ao fim: até à morte ignominiosa sobre a cruz. O contemplativo conseguirá talvez intuir um reflexo desse amor que o reduz aos tormentos da santa agonia no Jardim das Oliveiras. Aquele, porém, que vive, entorpecido pelos negócios materiais, procurando muito mais o mundo do que o Céu, deve vê-lo também pelo aspecto externo, pregado à cruz, para que, ao menos, o comova a visão do seu Sangue e a Sua cruel agonia.
Não. o Seu coração, transbordante de amor, não está ainda contente! Domina-o a aflição, e ora de novo: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu bebe, faça-se a Tua vontade”.
A partir deste instante, Jesus responde do fundo do seu coração abrasado de amor, ao grito da humanidade que reclama a sua morte como preço da Redenção. À sentença de morte que seu Pai pronuncia no Céu, responde a Terra reclamando a sua morte. Jesus inclina a sua adorável cabeça: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade”.
E eis que o Pai lhe envia um anjo de consolação. Que alívio pode um anjo oferecer ao Deus da força, ao Deus invencível, ao Deus Todo-Poderoso? Mas este Deus quis tornar-se inerme. Tomou sobre os ombros toda a nossa fraqueza. É o Homem das Dores, em luta com a agonia.
Ora ao Pai por Si e por nós. O Pai recusa atendê-lo, pois deve morrer por nós. Penso que o anjo se prostra profundamente diante da Beleza eterna, manchada de pó e sangue, e com indizível respeito suplica a Jesus que beba o cálice, pela glória do Pai e pelo resgate dos pecadores.
Rezou assim, para nos ensinar a recorrer ao Céu, unicamente quando as nossas almas estão desoladas como a Sua.
Ele, a nossa força, virá ajudar-nos, pois que consentiu em tomar sobre os ombros todas as nossas angústias.
Sim, meu Jesus, é preciso que bebais o cálice até ao fundo! Estais votado à morte mais cruel. Jesus, que nada possa separar-me de vós, nem a vida nem a morte! Se, ao longo da vida, só desejo unir-me ao vosso sofrimento, com infinito amor, ser-me-á dado morrer convosco no Calvário e convosco subir à Glória. Se vos sigo nos tormentos e nas perseguições tornar-me-eis digno de vos amar um dia, no Céu, face a face, convosco, cantando eternamente o vosso louvor em ação de graças pela cruel Paixão.
Vede! Forte, invencível, Jesus ergue-se do pó! Não desejou Ele o banquete de sangue com o mais forte desejo? Sacode a perturbação que o invadira, enxuga o suor sangrento da face, e, em passo firme dirige-se para a entrada do Jardim.
Onde ides, Jesus? Ainda há instantes, não estavas empolgado pela angústia e pela dor? Não vos vi eu, trêmulo, e como que esmagado sob o peso cruel das provações que vão tombar sobre vós? Aonde ides nesse passo intrépido e ousado? A quem vais entregar-vos?
— Escuta, meu filho. As armas da oração ajudaram-me a vencer; o espírito dominou a fraqueza da carne. A força foi-me transmitida, enquanto orava, e agora eis-me pronto a tudo desafiar. Segue o meu exemplo e arranja-te com o Céu, como eu fiz. Jesus aproxima-se dos apóstolos. Continuam a dormir! A emoção, a hora tardia, o pressentimento de alguma coisa horrível e irreparável, a fadiga — e ei-los mergulhados em sono de chumbo. Jesus tem piedade de tanta fraqueza. “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
Jesus exclama. “Dormi agora e repousai”. Detém-se por instante. Ouvem que Jesus se vai aproximando, e entreabrem os olhos...
Jesus continua a falar: “Basta. É chegada a hora; eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos; eis que se aproxima o que me há de entregar”. Jesus vê todas as coisas com os seus olhos divinos. Parece dizer: Meus amigos e discípulos, vós dormis, enquanto que os meus inimigos velam e se aproximam para virem prender-me! Tu, Pedro, que há pouco te julgavas bastante forte para me seguir até na morte, também tu dormes agora! Desde o princípio tens-me dado provas da tua fraqueza! Está, porém, tranqüilo. Aceitei sobre mim a tua fraqueza e rezei por ti. Depois de confessares a tua falta, serei a tua força e apascentará os meus rebanhos...
E tu, João, também tu dormes? Tu, que acabavas de sentir as pulsações do meu coração, não pudeste velar uma hora comigo!
Levantai-vos, vamos partir, já não há tempo para dormir. O inimigo está à porta! É a hora do poder das trevas! Partamos. De livre vontade, vou ao encontro da morte. Judas acorre para trair-me, e eu vou ao seu encontro. Não impedirei que se cumpram à risca as profecias. Chegou a minha hora: a hora da misericórdia infinita.
Ressoam os passos; archotes acesos enchem o jardim de sombras e púrpura. Intrépido e calmo, Jesus avança seguido pelos discípulos.
— Ó meu Jesus, dai-me a vossa força quando a minha pobre natureza se revolta diante dos males que a ameaçam, para que possa aceitar com amor as penas e aflições desta vida de exílio. Uno-me com toda a veemência aos vossos méritos, às vossas dores, à vossa expiação, às vossas lágrimas, para poder trabalhar convosco na obra da salvação. Possa eu ter a força de fugir ao pecado, causa única da vossa agonia, do vosso suor de sangue, e da vossa morte.
Afasteis de mim o que vos desagrada, e imprimi no meu coração com o fogo do vosso santo amor todos os vossos sofrimentos. Abraçai-me tão intimamente, em abraço tão forte e tão doce, que nunca eu possa deixar-vos sozinho no meio dos vossos cruéis sofrimentos.
Só desejo um único alívio: repousar sobre o vosso coração. Só desejo uma única coisa: partilhar da vossa Santa Agonia. Possa a minha alma inebriar-se com o vosso Sangue e alimentar-se com o pão da vossa dor!
Amém.

Porque Jesus quis nascer criança - Santo Afonso Maria de Ligório




Porque Jesus quis nascer criança

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Parvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho” (Is. 6, 9).

Sumário. São vários os motivos pelos quais Jesus quis nascer criança. Primeiro, quis desta forma mostrar-nos a sua propensão e facilidade em dar-nos os seus bens. Quis, em segundo lugar, afastar de nós todo o temor ao vermo-Lo reduzido, por assim dizer, a um estado de impotência para nos castigar pelos nossos pecados. Mas sobretudo Jesus nasceu como criança para se fazer amar por nós, não somente de apreço, senão de ternura. Amemo-Lo, pois, de todo o coração, cheguemo-nos a Ele, e peçamos-Lhe toda a sorte de bens.

I. Considerai que ao fim de tantos séculos, depois de tantas súplicas e suspiros, o Messias, a quem os santos Patriarcas e Profetas não tinham sido dignos de verem, o Suspirado das gentes, o desejo das colinas eternas, o nosso Salvador, já veio, já nasceu e já se deu todo a nós: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho.” O Filho de Deus se fez pequenino, para nos fazer grandes; deu-se a nós, a fim de que nós nos demos a Ele, veio mostrar-nos o seu amor a fim de que nós Lhe respondamos com o nosso. Façamos-Lhe acolhida afetuosa, amemo-Lo e recorramos a Ele em todas as nossas necessidades.

Puer facile donat. As crianças, diz São Bernardo, gostam de dar o que se lhes pede. Jesus veio como criança para se nos mostrar todo inclinado e propenso a comunicar-nos os seus bens. “Nele estão encerrados todos os tesouros.” (1) “O Pai tudo tem posto em sua mão.” (2) Se desejamos luz, Ele veio para nos iluminar. Se queremos força para resistirmos aos inimigos, Ele veio exatamente para nos confortar. Se queremos o perdão e a salvação, ei-Lo que veio para nos perdoar e nos salvar. Se queremos, finalmente, o dom supremo do divino amor, Ele veio para abrasar-nos o coração. É sobretudo para este fim que se fez criança. Quis aparecer no meio de nós tanto mais amável, quanto mais pobre e humilde, quis tirar-nos todo o temor e ganhar o nosso amor, como observa São Pedro Crisólogo: Taliter venire debuit, qui voluit timorem pellere, quaerere caritatem.

Além disso, Jesus quis vir pequenino para ser de nós amado com amor não somente de apreço, senão também de ternura. Todas as crianças sabem ganhar o afeto de todos aqueles que as vêem; mas quem não amará com toda a ternura a um Deus feito criancinha, necessitado de leite, tiritante de frio, pobre, humilhado, abandonado; a um Deus que chora e está vagindo numa manjedoura sobre a palha? Isso fez o amante São Francisco exclamar: Amemus Puerum de Bethlehem; Amemus Puerum de Bethlehem. Vinde amar a um Deus feito criança, feito pobre, e tão amável que baixou do céu para se dar todo a vós.

 
II. Ó meu Jesus, tão amável e de mim tão desprezado, baixastes do céu, a fim de nos remirdes do inferno e Vos dardes todo a nós, e nós, como temos podido desprezar-Vos tantas vezes e virar-Vos as costas? Ó Deus, os homens mostram-se tão agradecidos às criaturas! Se alguém lhes faz qualquer favor, se alguém vem de longe a visitá-los, se se lhes dá alguma demonstração de afeto, não podem esquecê-lo e sentem-se obrigados a retribuí-lo. E depois são tão ingratos para convosco, que sois o seu Deus, que sois tão amável e que por seu amor não recusastes dar o sangue e a vida.

Mas, ai de mim, que tenho sido para convosco pior do que os outros, por ter sido mais amado de Vós e mais ingrato a vosso amor. Ah! Se tivésseis concedido a um herege, a um idólatra as graças que me dispensastes a mim, ele se teria tornado santo, e eu Vos tenho ofendido. Por piedade, esquecei as injúrias que Vos tenho feito. Mas, Vós já dissestes, que quando um pecador se arrepende, não mais Vos lembrais de todos os ultrajes recebidos (3). Se em outro tempo não Vos amei, para o futuro não quero senão amar-Vos. Vós Vos destes todo a mim e eu Vos dou toda a minha vontade; com esta amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos; quero repetí-lo sempre: amo-Vos, amo-Vos. Repetindo isto quero viver, e assim quero morrer, exalando o espírito com estas doces palavras nos lábios: Meu Deus, amo-Vos. Desde o primeiro instante em que entrar na eternidade quero começar a amar-Vos com um amor contínuo, que durará sempre, sem que eu possa ainda deixar de Vos amar.

Entretanto, ó meu Senhor, meu único Bem e meu único Amor, resolvo antepor a vossa vontade a qualquer querer meu. Ainda que me oferecessem o mundo inteiro, não o quero. Não quero mais deixar de amar a quem tanto me tem amado; não quero mais dar desgosto a quem merece da minha parte um amor infinito. Ajudai-me, ó meu Jesus, com a vossa graça, a realizar este desejo. — Maria, minha Rainha, é à vossa intercessão que me reconheço devedor de todas as graças recebidas de Deus; não deixeis de interceder por mim. Vós que sois a Mãe da perseverança, obtende-me a perseverança final. (II 346.)
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1. Col. 2, 3.
2. Io. 3, 35.
3. Is. 43, 25.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 111 - 114)

Grande fruto que se tira da meditação da Paixão de Jesus Cristo - Santo Afonso Maria de Ligório








Abraham, pater vester, exultavit, ut videret diem meum: vidit et gavisus est — “Abraão, vosso pai, desejou ansiosamente ver o meu dia: ele o viu e exultou de gozo” (Io. 8, 56).

Sumário. Não é sem razão que Abraão e com ele os demais justos do Antigo Testamento desejavam tão ansiosamente ver o dia do Senhor. Sim, porque depois da vinda de Jesus Cristo, é impossível que uma alma crente que medita nas dores e ignomínias que Ele sofreu por nosso amor, não se abrase em amor e não se resolva firmemente a tornar-se santa. Se, pois, queremos progredir no caminho de perfeição, meditemos a miúdo, e especialmente nestes dias, na Paixão do Redentor, e meditando afiguremo-nos que presenciamos os mistérios dolorosos.

I. Não é sem razão que o patriarca Abraão desejou ansiosamente ver o dia do Senhor; e que, tendo tido a ventura de vê-lo por uma revelação divina, ainda que em espírito somente, se alegrou em seu coração, como atesta o Evangelho de hoje. Sim, porque o tempo que se seguiu à vinda de Jesus Cristo, já não é mais tempo de temor, mas tempo de amor: Tempus tuum, tempus amantium (1).

Na Lei antiga, antes da Encarnação do Verbo, podia o homem, por assim dizer, duvidar se Deus o amava. Depois de O havermos visto, porém, morrendo por nós, exangue e vilipendiado sobre um patíbulo infame, já não podemos duvidar que Ele nos ame com toda a ternura. — Quem poderá jamais compreender, que excesso de amor levou o Filho de Deus a pagar a pena dos nossos pecados? E, todavia, isso é um ponto de fé: Dilexit nos, et lavit nos in sanguine suo (2) — “Ele nos amou, lavou-nos em seu sangue”. Ó misericórdia infinita! Ó amor infinito de Deus!

Mas porque é que tantos cristãos olham com indiferença para Jesus Cristo crucificado? Que na Semana Santa assistem à comemoração da morte de Jesus, mas sem algum sentimento de ternura e gratidão, como se não se comemorasse um fato verdadeiro, ou não lhes dissesse respeito?

Não sabem, ou não crêem, porventura, o que os santos Evangelhos dizem acerca da Paixão de Jesus Cristo? Com certeza o crêem, mas não refletem. Entretanto, é impossível que uma alma crente, que medita nas dores e ignomínias que Jesus Cristo padeceu por nosso amor, não se abrase de amor para com Ele e não tome uma forte resolução de tornar-se santa, a fim de não se mostrar ingrata para com Deus tão amante. Caritas Christi urget nos (3) — “A caridade de Cristo nos constrange”.

II. Meu irmão, se queres sempre crescer em amor para com Deus e progredir na perfeição, medita a miúdo na Paixão de Jesus Cristo, conforme o conselho que te dá São Boaventura: Quotidie mediteris Domini passionem. Especialmente nestes dias, que procedem a comemoração da sua morte dolorosíssima, guiado pelos sagrados Evangelhos, contempla com olhos cristãos tudo que o Salvador sofreu nos principais teatros de seu padecimento; isto é, no horto das oliveiras, na cidade de Jerusalém e no monte Calvário.

Para que tires desta meditação o fruto mais abundante possível, representa-te os sofrimentos de Jesus Cristo tão vivamente, que te pareça veres diante dos olhos o Redentor tão maltratado, e sentires em ti mesmo as chagas que n'Ele abriram as pontas dos espinhos e dos cravos, a amargura do vinagre e fel, o pejo das ignomínias e dos desprezos: Hoc enim sentite in vobis, quod et in Christo Iesu (4) — “Senti em vós o que Jesus Cristo sentiu”. Ao passo que assim meditas, repete muitas vezes com o Apóstolo: Tudo isso o Senhor tem feito e padecido por mim, para me mostrar o seu amor e ganhar o meu: Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me (5) — “Ele me amou e se entregou por mim”. E não O amarei?

Sim, amo-Vos; † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas; e porque Vos amo, pesa-me de Vos haver ofendido, e proponho antes morrer do que Vos tornar a ofender. “Vos, ó Senhor onipotente, lançai sobre mim um olhar benigno, para que por vossa proteção seja regido no corpo e defendido na alma”. (6) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*I 600)
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1. Ez. 16, 8
2. Eph. 5, 2.
3. 2 Cor. 5, 14
4. Phil. 2, 5.
5. Gal 2, 20.
6. Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 374-376.)

Santo Tomás de Aquino: o Mandamento da Caridade









 Santo Tomás de Aquino
O MANDAMENTO DA
CARIDADE

1. Introdução. 

Três coisas são necessárias à salvação do homem, a saber:
a ciência do que se há de crer,
a ciência do que se há de desejar,
* e a ciência do que se há de operar.

A primeira nos é ensinada no Credo, onde nos é ensinada a ciência dos artigos da fé. A segunda, no Pai Nosso. A terceira na Lei.

Agora a nossa intenção é acerca da ciência do que se há de operar, para tratar da qual encontramos quatro leis.

2. A lei da natureza. 

A primeira lei é dita lei da natureza, e esta nada mais é do que a luz da inteligência colocada em nós por Deus, pela qual conhecemos o que devemos agir e o que devemos operar. Esta luz e esta lei Deus a deu ao homem na criação, mas muitos acreditam dela poderem desculpar-se por ignorância se não a observarem. Contra estes diz, porém, o profeta no salmo quarto:
"Muitos dizem:
Quem nos mostrará o bem?",

como se ignorassem o que é para se operar. Mas o próprio profeta no mesmo lugar responde:
"Sobre nós está assinalada
a luz do teu semblante, ó Senhor",

luz, a saber, do intelecto, pela qual nos é conhecido o que se deve agir. De fato, ninguém ignora que aquilo que não quer que seja feito a si, não o faça ao outro, e outras tais.

3. A lei da concupiscência. 

Posto, porém, que Deus na criação deu ao homem esta lei, a saber, a da natureza, o demônio, todavia, semeou sobre esta uma outra lei, a da concupiscência. Com efeito, até quando no primeiro homem a alma foi submissa a Deus, observando os divinos preceitos, também a carne foi submissa em tudo à alma, ou à razão. Mas depois que o demônio pela tentação afastou o homem da observância dos preceitos divinos, também a carne se tornou desobediente à razão. De onde aconteceu que ainda que o homem queira o bem segundo a razão, todavia é inclinado ao contrário pela concupiscência. E isto é o que nos diz o Apóstolo no sétimo de Romanos: 

"Mas vejo outra lei nos meus membros
que se opõe à lei da minha razão".

Daqui é que freqüentemente a lei da concupiscência corrompe a lei da natureza e a ordem da razão, e por isso acrescenta o Apóstolo: 

"Acorrentando-me à lei do pecado".

4. A lei da Escritura, ou do temor.

A lei da natureza, pois, estava destruída pela lei da concupiscência. Fazia-se, portanto, necessário que o homem fosse restituído à obra da virtude e fosse afastado dos vícios. Para isto foi necessária a lei da Escritura.

Deve-se saber, porém, que o homem é afastado do mal e induzido ao bem por duas coisas, a primeira das quais sendo o temor. De fato, a primeira coisa pela qual alguém maximamente principia a evitar o pecado é a consideração das penas do inferno e do juízo final. Por isso é que o Eclesiástico nos diz:
"O início da Sabedoria
é o temor do Senhor",

e também:
"O temor do Senhor
expulsa o pecado",


pois, ainda que aquele que por temor não peca não seja justo, todavia daqui principia a justificação. É deste modo que o homem é afastado do mal e induzido ao bem pela lei de Moisés, a qual punia os transgressores com a morte:
"Quem transgride a Lei de Moisés
é condenado à morte, sem piedade,
com base em duas ou três testemunhas".


Heb. 10


5. A lei Evangélica, ou do amor. 


O modo do temor, porém, é insuficiente, e a lei que foi dada por Moisés desta maneira, afastando do mal pelo temor, também foi insuficiente. De fato, ainda que obrigasse a mão, não obrigava a alma. Por isso há um outro modo de afastar do mal e induzir ao bem, a saber, o modo do amor, e deste modo foi dada a lei de Cristo, a lei Evangélica, que é lei de amor.


6. A lei do amor torna livre.


Deve-se considerar, entretanto, que entre a lei do temor e a lei do amor são encontradas três diferenças.

A primeira consiste em que a lei do temor faz de seus observantes servos, enquanto que a lei do amor os faz livres. Pois quem opera somente pelo temor opera pelo modo de servo; quem, porém, o faz por amor, o faz por modo de livre, ou de filho. De onde que diz o Apóstolo:
"Onde está o Espírito do Senhor,
lá está a liberdade",


II Cor. 3


porque, a saber, estes por amor agem como filhos.


7. A lei do amor introduz nos bens celestes. 


A segunda diferença está em que os observadores da primeira lei eram introduzidos nos bens temporais, conforme diz Isaías:
"Se quiserdes, e me ouvirdes,
comereis dos bens da terra".


Is. 1


Mas os observadores da segunda lei são introduzidos nos bens celestes:
"Se queres entrar na vida,
observa os mandamentos".


Mat. 19


E também:
"Fazei penitência".


Mat. 2


8. A lei do amor é leve. 


A terceira diferença é que a primeira é pesada:
"Por que quereis impor
um jugo sobre nós
que nem nós, nem nossos pais
puderam suportar?"


Atos 15


A segunda, porém, é leve:
"O meu jugo é suave,
e o meu peso é leve".


Mat. 11


E também:
"Não recebestes um espírito de servidão
para recairdes no temor,
mas recebestes o espírito
de adoção de filhos".


Rom. 8


9. Conclusão: simplicidade e retidão da lei de Cristo.


Assim, portanto, como já foi dito, encontram-se quatro leis, a primeira sendo a lei da natureza, que Deus infundiu no homem na criação, a segunda a lei da concupiscência, a terceira a lei da Escritura, a quarta a lei da caridade e da graça que é a lei de Cristo.

Como, porém, é evidente que nem todos podem ser versados na ciência, foi-nos dada por Cristo uma lei breve, para que por todos pudesse ser sabida, e ninguém por ignorância pudesse escusar-se de sua observância, e esta é a lei do amor divino. Como diz o Apóstolo:
"Fará o Senhor
uma palavra abreviada
sobre a terra".


Rom. 9


Deve-se saber, ademais, que esta lei deve ser a regra de todos os atos humanos. Com efeito, assim como vemos nas coisas feitas pela arte humana, em que cada obra é dita boa e correta quando segue a regra da arte, assim também qualquer obra humana é reta e virtuosa quando concorda com a regra do amor divino. Quando, porém, discorda desta regra, não é boa, nem reta, ou perfeita. Portanto, para que os atos humanos se tornem bons, é necessário que concordem com a regra do amor divino.


10. Os efeitos da lei do amor: o amor causa a vida espiritual. 


Deve-se saber, também, que esta lei, a do amor divino, produz quatro coisas no homem imensamente desejáveis, a primeira das quais é causar no mesmo a vida espiritual.

É, de fato, manifesto que o amado está naturalmente no amante e por isto, quem a Deus ama, possui Deus em si:
"Quem permanece na caridade
em Deus permanece,
e Deus nele".


I Jo. 4


A natureza do amor é também tal que transforma o amante no amado; de onde que se amamos o que é vil e caduco, vis e instáveis nos tornamos:
"Fizeram-se abomináveis
assim como o que amaram".


Os. 1


Se, porém, a Deus amarmos, divinos nos tornaremos, porque, como está escrito:
"Aquele que se une ao Senhor,
constitui com Ele um só espírito".


I Cor. 6


Neste sentido é que Santo Agostinho diz que assim como a alma é a vida do corpo, assim Deus é a vida da alma, e isto é manifesto. Porquanto dizemos o corpo viver pela alma, quando tem as operações próprias da vida, e quando opera e se move. Apartando- se, porém, a alma, nem o corpo opera, nem se move. Assim também a alma opera virtuosa e perfeitamente quando opera pela caridade, pela qual Deus habita nela. Sem a caridade, porém, não opera:
"Quem não ama,
permanece na morte".


I Jo. 3


Deve-se considerar, também, que se alguém tiver todos os dons do Espírito Santo sem a caridade, não tem a vida. Seja, de fato, a graça de falar em línguas, seja o dom da fé, ou seja qualquer outro, sem a caridade não concedem a vida. Com efeito, se o corpo dos mortos é vestido de ouro e de pedras preciosas, não obstante isto, morto permanece. Causar a vida espiritual é, portanto, o primeiro dos efeitos da caridade.


11. O amor causa a observância dos mandamentos. 


O segundo efeito da caridade é a observância dos mandamentos divinos. Diz São Gregório:
"Nunca o amor de Deus
é ocioso".

Porquanto, se existe, opera grandes coisas; se, porém, se recusa a operar, amor não é. De onde que um sinal manifesto da caridade é a prontidão na execução dos preceitos divinos. Vemos, de fato, os que amam operar por causa do amado coisas grandes e difíceis. Diz também o Evangelho de João:
"Se alguém me ama,
observará os meus mandamentos".


Jo. 14

Mas quem observa o mandamento e a lei do amor divino cumpre toda a lei. Pois há dois modos de mandamentos divinos. Alguns são afirmativos, e estes a caridade cumpre porque a plenitude da lei que consiste nos mandamentos é o amor pelo qual os mandamentos são observados. Já outros são proibitórios, e estes também a caridade cumpre, porque
"não age maldosamente",

como diz o Apóstolo na primeira aos Coríntios.


12. O amor é refúgio contra as adversidades. 


A terceira coisa que faz a caridade é ser refúgio contra as adversidades. Ao que tem caridade, nenhuma adversidade causa dano, antes, se converte em coisa útil:
"Todas as coisas cooperam
para o bem dos que amam a Deus".


Rom. 8


As coisas adversas e difíceis parecem suaves para os que amam, como entre nós o vemos manifestamente.


13. O amor conduz à eterna bem aventurança. 


O quarto efeito da caridade é o de conduzir à felicidade. Somente aos que tiverem caridade a felicidade eterna é prometida, pois todas as coisas sem a caridade são insuficientes:
"Desde já me está reservada
a coroa de justiça,
que me dará o Senhor,
justo juiz, naquele dia.
E não somente a mim,
mas a todos os que tiverem esperado
com amor a sua vinda".


II Tim. 4


E deve-se saber que somente segundo a diferença da caridade será a diferença da bem aventurança, e não segundo nenhuma outra virtude. Muitos, na verdade, fizeram maiores jejuns do que os apóstolos, mas estes na bem aventurança superam todos os outros por causa da excelência da caridade. Eles, com efeito, foram as primícias dos que têm o Espírito, com diz o Apóstolo, no oitavo de Romanos. De onde que a diferença da bem aventurança provém da diferença da caridade, e assim são patentes as quatro coisas que em nós faz a caridade.


14. Outros efeitos do amor: o amor produz o perdão dos pecados. 


Além destas, porém, a caridade faz outras coisas que não se devem deixar passar.

Primeiro, causa o perdão dos pecados, algo que já vemos manifestamente acontecer entre nós. Porquanto, se alguém ofender algum homem e posteriormente vier a amá-lo entranhadamente, o ofendido, por causa do amor com que é amado, perdoará a ofensa. Assim também Deus perdoa os pecados dos que o amam:
"A caridade encobre
uma multidão de pecados".


I Pe. 4


E diz bem o apóstolo que os encobre, porque para Deus não parece que devam ser punidos. Mas, posto que São Pedro diga que encobre uma multidão, todavia Salomão diz no décimo de Provérbios que
"a caridade encobre
todos os delitos",

o que o exemplo da Madalena maximamente manifesta:
"São-lhe perdoados
muitos pecados",

e a causa é mostrada:
"já que muito amou".


Luc. 7


Mas talvez alguém dirá: "Então a caridade basta para apagar os pecados, e não é necessário o arrependimento?" Deve-se considerar, porém, que ninguém verdadeiramente ama, que não se arrependa verdadeiramente. De fato, é manifesto que quanto mais amamos a alguém, tanto mais nos afligimos se a ele ofendemos, e isto é um efeito da caridade.


15. O amor produz a iluminação do coração. 


A caridade causa também a iluminação do coração. Com efeito, assim diz o livro de Jó:
"Estamos todos
envolvidos em trevas".


Jó 37


Pois freqüentemente não sabemos o que agir, ou desejar. A caridade, porém, ensina tudo o que é necessário à salvação. Por isto está dito:

"Sua unção
vos ensinará de tudo".



I Jo. 2


Isto é porque, onde está a caridade, lá está o espírito Santo que a tudo conhece, o qual nos conduz no caminho correto, assim como está escrito no Salmo 138. E por isso diz também o Eclesiástico:
"Vós, que temeis a Deus, amai-O,
e se iluminarão os vossos corações",

a saber, para o conhecimento do que é necessário à salvação.


16. O amor realiza a perfeita alegria. 


A caridade também realiza no homem a perfeita alegria. Na verdade, ninguém tem verdadeira alegria a não ser existindo na caridade. Quem quer que deseje algo não está contente, nem se alegra, e nem tem repouso enquanto não o conseguir. E nas coisas temporais sucede que o que se não se tem é apetecido, e o que se tem é desprezado e gera o tédio. Mas não é assim nas coisas espirituais; antes, ao contrário, quem a Deus ama, a Deus possui, e por isso a alma de quem o ama e o deseja nEle repousa:
"Quem",


de fato,
"permanece na caridade,
em Deus permanece,
e Deus nele",


como está dito no quarto da primeira Epístola de João.


17. O amor produz a perfeita paz. 


Igualmente, a caridade produz a perfeita paz. Pois acontece nas coisas temporais que sejam desejadas com freqüência, mas obtidas as mesmas, ainda a alma do que as deseja não repousa, antes, ao contrário, obtida uma, outra apetece:
"O coração do ímpio
é como um mar revolto,
que não pode repousar".


Ecl. 57


E também, no mesmo lugar:
"Não há paz para o ímpio,
diz o Senhor".


Mas não acontece assim na caridade para com Deus. Quem, de fato, ama a Deus, tem a paz perfeita:
"Muita paz aos que amam a Tua lei,
e não há tropeço para eles".


Salmo 118


E isto porque somente Deus é capaz de satisfazer o nosso desejo, porquanto Deus é maior do que o nosso coração, como diz o Apóstolo. E por isso diz Santo Agostinho no primeiro livro das Confissões:
"Fizeste-nos, ó Senhor,
para ti,
e o nosso coração está inquieto
enquanto não repousa em ti".


E também:
"O qual preenche de bens
o teu desejo".


Salmo 102


A caridade também torna o homem de grande dignidade. Com efeito, todas as criaturas servem à própria majestade divina, e por ela foram feitas, assim como as coisas artificiais servem ao artífice. Mas a caridade faz do servo um livre e um amigo. De onde diz o Senhor:
"Já não vos chamarei de servos,
mas de amigos".


Jo. 15


Mas porventura Paulo não é servo? E os outros apóstolos não escreviam de si serem servos? Quanto a isto deve-se saber que há duas servidões. A primeira é a do temor, e esta é penosa e não meritória. Se, de fato, alguém se abstém do pecado somente pelo temor da pena, não merece por isto. Ainda é servo.

A segunda servidão é a do amor. Se, na verdade, alguém opera não pelo temor da justiça, mas pelo amor divino, não opera como servo, mas como livre, porque voluntariamente, e é por isto que Cristo diz:
"Já não vos chamarei
mais de servos".


E por que? A isto responde o Apóstolo:
"Não recebestes o espírito de servidão
para recairdes no temor,
mas recebestes o espírito
de adoção de filhos".

Rom. 8


"Não há, de fato, temor na caridade", como diz I Jo. 4. O temor tem, certamente, tormento, mas a caridade deleitação.


18. O amor dignifica o homem. 


A caridade igualmente torna não somente livres, mas também filhos, para que, a saber,
"sejamos chamados filhos de Deus
e de fato o sejamos".


I Jo. 3


Com efeito, o estranho se torna filho adotivo quando adquire para si o direito na herança de Deus, que é a vida eterna. Pois, como diz Romanos:
"O próprio Espírito
dá testemunho ao nosso espírito
que somos filhos de Deus.
Se, porém, filhos,
também herdeiros:
herdeiros de Deus
e co-herdeiros de Cristo".


Rom. 8


E também:
"Eis que são contados
entre os filhos de Deus".


Sab. 5


19. O amor de caridade só pode ser alcançado pela graça. 


Do que já foi dito fica patente a utilidade da caridade. Pois que, portanto, seja tão útil, deve-se trabalhar diligentemente para adquirí-la e retê-la.

Deve-se saber, porém, que ninguém pode por si mesmo possuir a caridade. Antes, ao contrário, é dom inteiramente de Deus. De onde que diz João:

"Não fomos nós que amamos a Deus,
mas Ele quem nos amou primeiro",


I Jo. 4


porque certamente não por causa de nós o amarmos primeiro que Ele nos ama, mas o próprio fato de o amarmos é causado em nós pelo seu amor.

Deve-se considerar também, que ainda que todos os dons sejam do pai das luzes, todavia este dom, a saber, o da caridade, supera todos os demais dons. De fato, todos os outros podem ser possuídos sem a caridade e o Espírito Santo; com a caridade, porém, possui-se necessariamente o Espírito Santo:

"A caridade de Deus
foi derramada nos nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado".


Seja o dom das línguas, portanto, seja o dom da ciência ou o da profecia, todos estes podem ser possuídos sem a graça e o Espírito Santo.


20. Quatro disposições para alcançar de Deus a graça da caridade. 


Mas ainda que a caridade seja dom divino, para possuí- la, todavia, requer-se a disposição de nossa parte. Por isso deve-se saber que duas coisas são necessárias para adquirir a caridade, e duas para aumentar a caridade já adquirida.


21. Primeira disposição: a escuta da palavra de Deus. 


Para adquirir, pois, a caridade, a primeira coisa é a escuta diligente da palavra de Deus, o que é suficientemente manifesto pelo que ocorre entre nós. Ouvindo, de fato, coisas boas de alguém, somos acesos em seu amor. Assim também, ouvindo as palavras de Deus, somos acesos em seu amor:
"A tua palavra é um fogo ardente,
e o teu servo a amou".


Salmo 118, 140


E também:
"A palavra de Deus o inflamou".


Salmo 104


Por esta causa aqueles dois discípulos, ardendo do amor divino, diziam:
"Porventura não ardia em nós
o nosso coração,
enquanto nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?"


Luc. 24


De onde que também no décimo de Atos se lê que
"Pregando Pedro,
o Espírito Santo caiu nos ouvintes
da palavra divina".


E o mesmo freqüentemente acontece nas pregações, isto é, que os que se aproximam com o coração duro, por causa da palavra da pregação, são acesos ao amor divino.


22. Segunda disposição: a meditação. 


Para adquirir a caridade, a segunda coisa é a contínua consideração dos bens recebidos:
"Aqueceu-se o meu coração
dentro de mim".


Salmo 38


Se, portanto, queres conseguir o amor divino, meditarás os bens recebidos de Deus. Demasiadamente duro seria, na verdade, quem considerando os benefícios divinos que alcançou, os perigos dos quais escapou, e a bem aventurança que lhe é prometida por Deus, que não se acendesse ao amor divino. De onde que diz Santo Agostinho:
"Dura é a alma do homem que,
posto que não queira retribuir o amor,
não queira pelo menos agradecer".


E, de modo geral, assim como os pensamentos maus destróem a caridade, assim os bons a adquirem, a alimentam e a conservam, de onde que nos é ordenado:

"Retirai os vossos maus pensamentos
dos meus olhos".


Is. 1


E também:

"Os pensamentos perversos
separam de Deus".


Sab. 1


23. Terceira disposição: afastar o coração das coisas da terra. 


Há também duas coisas que aumentam a caridade possuída, e a primeira é afastar o coração do que é terreno.

O coração, de fato, não pode ser trazido perfeitamente a coisas diversas, de onde que ninguém é capaz de amar a Deus e ao mundo. E por isso, quanto mais nos afastarmos do amor do que é terreno, tanto mais nos firmaremos no amor divino. De onde que Santo Agostinho diz no Livro das 83 Questões:
"A esperança de conseguir ou reter
o que é temporal
é veneno da caridade".


O seu alimento é a diminuição da cobiça; sua perfeição, a nenhuma cobiça, porque a raiz de todos os males é a cobiça.

Quem quer que, portanto, queira alimentar a caridade, insista em diminuir a cobiça.

A cobiça é o amor de conseguir ou obter o que é temporal, e o início de sua diminuição é o temor de Deus, o qual não pode somente ser temido, sem amor. É por esta causa que se ordenaram as religiões, nas quais e pelas quais a alma é trazida do que é mundano e corruptível ao que é divino, conforme se encontra escrito no Segundo de Macabeus, onde se lê:
"Refulgiu o Sol,
que antes estava entre nuvens".


II Mac. 1


O Sol, isto é, o intelecto humano, está entre nuvens quando entregue às coisas terrenas. Refulgirá, porém, quando for afastado e removido do amor do que é terreno. Resplandescerá, então, e nele crescerá o amor divino.


24. Quarta disposição: a firme paciência na adversidade. 


A segunda coisa que aumenta a caridade é a firme paciência na adversidade.

É manifesto, de fato, que quando sustentamos dificuldades por aquele a quem amamos, o próprio amor não é destruído; antes, ao contrário, ele cresce:
"As muitas águas",


isto é, as tribulações,
"não puderam extinguir
a caridade".


Cant. 8


É assim que os homens santos que sustentam adversidades por Deus mais se firmam em seu amor, assim como o artífice mais amará aquela sua obra na qual mais trabalhou. Daí também vem que os fiéis quanto maiores aflições por Deus sustentam, tanto mais se elevam no seu amor:
"Multiplicaram-se as águas",


isto é, as tribulações,
"e elevaram a arca ao alto",


Gen. 7


isto é, a Igreja, ou a alma do homem justo. 

ACERCA DAS SETE PALAVRAS PRONUNCIADAS POR CRISTO NA CRUZ (DE SEPTEM VERBIS A CHRISTO IN CRUCE PROLATIS)



ACERCA DAS SETE PALAVRAS PRONUNCIADAS POR CRISTO NA CRUZ
(DE SEPTEM VERBIS A CHRISTO IN CRUCE PROLATIS)
São Roberto Belarmino

Tradução: Permanência

CAPÍTULO I
Explicação literal da primeira Palavra:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”
Cristo Jesus, o Verbo do Pai Eterno, de quem o mesmo Pai dissera: “Ouvi-o”[21], e que dissera de si mesmo: “Porque um só é o vosso Mestre”[22], para realizar a tarefa que assumira, nunca deixou de nos instruir. Não somente durante sua vida, mas até nos braços da morte, do púlpito da Cruz, pregou-nos poucas palavras, mas ardentes de amor, de suma utilidade e eficácia, e em todo o sentido dignas de ser gravadas no coração de qualquer cristão, para ser aí preservadas, meditadas, e realizadas literalmente e em obra. Sua primeira palavra é esta: “E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”[23]. Prece que, conquanto nova e nunca antes ouvida, quis o Espírito Santo fosse predita pelo Profeta Isaías nestas palavras: “e pelos transgressores fez intercessão”[24]. E as petições de Nosso Senhor na Cruz provam quão verdadeiramente falou o Apóstolo São Paulo quando disse: “a caridade [...] não busca os seus próprios interesses”[25], pois, das sete palavras que pronunciou nosso Redentor, três foram pelo bem dos demais, três por seu próprio bem, e uma foi comum tanto para Ele como para nós. Sua atenção, porém, foi primeiro para os demais. Pensou em si mesmo ao final.
Das três primeiras palavras que Ele disse, a primeira foi para seus inimigos, a segunda para seus amigos, e a terceira para seus parentes. Pois bem, a razão por que orou, então, é que a primeira demanda da caridade é socorrer aqueles que estão necessitados, e aqueles que estavam mais necessitados de socorro espiritual eram seus inimigos, e o de que nós, discípulos de tão grande Mestre, mais necessitamos é amar nossos inimigos, virtude que sabemos muito difícil de obter e que raramente encontramos, ao passo que o amor a nossos amigos e parentes é fácil e natural, cresce com os anos e muitas vezes predomina mais do que deveria. Razão por que escreveu o Evangelista: “E Jesus dizia”[26], onde a palavra “e” manifesta o tempo e a ocasião desta oração por seus inimigos, e põe em contraste as palavras do Sofrente e as palavras dos verdugos, Suas obras e as obras deles, como se o Evangelista quisesse explicar-se melhor desta maneira: estavam crucificando o Senhor, e em sua mesma presença estavam repartindo sua túnica entre si, zombavam-no e difamavam como embusteiro e mentiroso, ao passo que Ele, vendo o que estavam fazendo, escutando o que estavam dizendo, e sofrendo as mais agudas dores nas mãos e nos pés, pagou com bem o mal, e orou: “Pai, perdoa-lhes”.
Chama-Lhe “Pai”, não Deus ou Senhor, porque quis que Ele exercesse a benignidade do Pai e não a severidade de um Juiz, e, como quis Ele evitar a cólera de Deus, que sabia provocada pelos enormes crimes, usa o terno nome de Pai. A palavra Pai parece conter em si mesma este pedido: Eu, Teu Filho, em meio de todos os meus tormentos, os perdoei. Faz Tu o mesmo, Pai Meu, estende Teu perdão a eles. Conquanto não o mereçam, perdoa-lhes por Mim, Teu Filho. Lembra-te também de que és seu Pai, pois os criaste, fazendo-os à Tua imagem e semelhança. Mostra-lhes, portanto, um amor de Pai, pois, conquanto sejam maus, são porém filhos Teus.
“Perdoa”. Esta palavra contém a petição principal que o Filho de Deus, como advogado de seus inimigos, faz a Seu Pai. A palavra “perdoa” pode referir-se tanto ao castigo devido ao crime como ao crime mesmo. Se está referida ao castigo devido ao crime, foi então a oração escutada: pois, já que este pecado dos judeus demandava que seus perpetradores sentissem instantânea e merecidamente a ira de Deus, sendo consumidos por fogo do céu ou afogados num segundo dilúvio, ou exterminados pela fome e pela espada, ainda assim a aplicação deste castigo foi posposta por quarenta anos, período durante o qual, se o povo judeu tivesse feito penitência, teria sido salvo e sua cidade, preservada, mas, dado que não fizeram penitência, Deus mandou contra eles o exército romano, que, durante o reino de Vespasiano, destruiu suas metrópoles e, parte de fome durante o sítio, parte pela espada durante o saque da cidade, matou grande multidão de seus habitantes, enquanto os sobreviventes eram vendidos como escravos e dispersos pelo mundo.
Todas estas desgraças foram preditas por Nosso Senhor nas parábolas do vinhateiro que contratou obreiros para sua vinha, do rei que fez uma boda para seu filho, da figueira estéril, e, mais claramente, quando chorou pela cidade no Domingo de Ramos. A oração de Nosso Senhor foi também escutada se é que fazia referência ao crime dos judeus, pois obteve para muitos a graça da compunção e da reforma da vida. Houve alguns que “retiravam-se, batendo no peito”[27]. Houve o centurião que disse “Na verdade este era filho de Deus”[28]. E houve muitos que algumas semanas depois se converteram pela pregação dos Apóstolos, e confessaram Aquele que tinham negado, adoraram Aquele que tinham desprezado. Mas a razão por que a graça da conversão não foi outorgada a todos é que a vontade de Cristo se conforma à sabedoria e à vontade de Deus, que São Lucas manifesta quando nos diz nos Atos dos Apóstolos: “E creram todos os que eram predestinados para a vida eterna”[29].
“[Perdoai-]Lhes”. Esta palavra é aplicada a todos por cujo perdão Cristo orou. Em primeiro lugar é aplicada àqueles que realmente pregaram Cristo na Cruz, e repartiram seus vestidos lançando sortes. Pode ser também estendida a todos os que foram causa da Paixão de Nosso Senhor: a Pilatos, que pronunciou a sentença; às pessoas que gritaram: “Seja crucificado. [...] Seja crucificado”[30]; aos sumos sacerdotes e escribas que falsamente o acusaram, e, para ir mais longe, ao primeiro homem e a toda a sua descendência, que por seus pecados ocasionaram a morte de Cristo. E assim, de sua Cruz, Nosso Senhor orou pelo perdão de todos os seus inimigos. Cada um, porém, se reconhecerá a si mesmo entre os inimigos de Cristo, de acordo com as palavras do Apóstolo: “sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho”[31]. Portanto, nosso Sumo Sacerdote, Cristo, fez uma comemoração para todos nós, até antes de nosso nascimento, naquele sacratíssimo “Memento”, se assim o posso dizer, que Ele fez no primeiro Sacrifício da Missa que celebrou no altar da Cruz. Que retribuição, ó alma minha, farás ao Senhor por tudo o que fez por ti, ainda antes de que fosses? Nosso amado Senhor viu que tu também algum dia estarias nas fileiras de Seus inimigos, e, conquanto não o tivesses pedido, nem o tivesses buscado, Ele orou por ti a Seu Pai, para que não carregasse sobre ti a falta cometida por ignorância. Não te importa, portanto, ter em conta tão doce Protetor, e fazer todo o esforço por servi-Lo fielmente em tudo? Não é justo que com tal exemplo diante de ti aprendas não só a perdoar a teus inimigos com facilidade, e a orar por eles, mas até a atrair quantos possas a fazer o mesmo? É justo, e isto desejo e tenho o propósito de fazer, com a condição de que Aquele que me deu tão brilhante exemplo me dê também em sua bondade a ajuda suficiente para realizar tão grande obra.
Pois não sabem o que fazem. Para que sua oração seja razoável, Cristo diminui-se, ou, mais ainda, dá a desculpa que possa pelos pecados de seus inimigos. Ele certamente não podia desculpar a injustiça de Pilatos, ou a crueldade dos soldados, ou a ingratidão da gente, ou o falso testemunho daqueles que perjuraram. Então, não restou a Ele mais que desculpar-lhes a falta alegando ignorância. Pois com verdade o Apóstolo observa: “porque, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória”[32]. Nem Pilatos, nem os sumos sacerdotes, nem o povo sabiam que Cristo era o Senhor da Glória. Ainda assim, Pilatos o sabia um homem justo e santo, que fora entregue pela inveja dos sumos sacerdotes, e os sumos sacerdotes sabiam que Ele era o Cristo prometido, como ensina Santo Tomás, porque não podiam — nem o fizeram — negar que tinha operado muitos dos milagres que os profetas tinham predito que o Messias operaria. Enfim, a gente sabia que Cristo tinha sido condenado injustamente, pois Pilatos publicamente lhe dissera: “não encontrei nele culpa alguma”[33], e “Eu sou inocente do sangue deste justo”[34].
Mas, conquanto os judeus, tanto o povo como os sacerdotes, não soubessem o fato de que Cristo era Senhor da Glória, ainda assim não teriam permanecido neste estado de ignorância se sua malícia não os tivesse cegado. De acordo com as palavras de São João: “E, tendo ele feito tantos milagres em sua presença, não criam nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, quando disse: [...] Obcecou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração, e não se convertam, e eu não os sare”[35]. A cegueira não é desculpa para um homem cego, porque é voluntária, acompanhando, não precedendo, o mal que faz. Da mesma maneira, aqueles que pecam na malícia de seus corações sempre podem alegar ignorância, o que não é porém desculpa para seu pecado, pois não o precede, senão que o acompanha. Razão por que o Homem Sábio diz: “Os que praticam o mal erram”[36]. O filósofo, de igual modo, proclama com verdade que todo o que faz mal é ignorante do que faz, e por conseguinte se pode dizer dos pecadores em geral: “Não sabem o que fazem”. Pois ninguém pode desejar aquilo que é mau com base em sua maldade, porque a vontade do homem não tende para o mal tanto como para o bem, mas sim só ao que é bom, e por esta razão aqueles que escolhem o que é mau o fazem porque o objeto lhes é apresentado sob aparência de bem, e assim pode então ser escolhido. Isto é resultado do desassossego da parte inferior da alma, que cega a razão e a torna incapaz de distinguir nada que não seja bom no objeto que busca. Assim, o homem que comete adultério ou é culpado de roubo realiza estes crimes porque olha só o prazer ou o ganho que pode obter, e não o faria se suas paixões não o cegassem até ou à vergonhosa infâmia do primeiro e à injustiça do segundo. Um pecador, portanto, é similar a um homem que deseja lançar-se a um rio de um lugar elevado. Primeiro fecha os olhos e depois se lança de cabeça; assim, aquele que faz um ato de maldade odeia a luz, e atua sob uma voluntária ignorância que não o desculpa, porque é voluntária. Mas, se uma voluntária ignorância não desculpa o pecador, por que então Nosso Senhor orou: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”? A isto respondo que a interpretação mais direta por fazer das palavras de Nosso Senhor é que foram ditas para seus verdugos, que provavelmente ignoravam de todo não só a Divindade do Senhor mas até sua inocência, e simplesmente realizaram o labor do verdugo. Para eles, portanto, disse em verdade o Senhor: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.


Uma vez mais, se a oração de Nosso Senhor há de ser interpretada como aplicável a nós mesmos, que ainda não tínhamos nascido, ou àquela multidão de pecadores que eram seus contemporâneos mas que não tinham conhecimento do que estava sucedendo em Jerusalém, então disse com muita verdade o Senhor: “não sabem o que fazem”. Finalmente, se Ele se dirigiu ao Pai em nome de todos os que estavam presentes e sabiam que Cristo era o Messias e um homem inocente, então devemos confessar a caridade de Cristo, que é tal, que deseja atenuar o mais possível o pecado de seus inimigos. Se a ignorância não pode justificar uma falta, pode porém servir como desculpa parcial, e o deicídio dos judeus teria tido caráter mais atroz se conhecessem a natureza de sua Vítima. Conquanto Nosso Senhor fosse consciente de que tal não era uma desculpa, mas antes uma sombra de desculpa, apresentou-a com insistência, em verdade, para mostrar-nos quanta bondade sente com relação ao pecador, e com quanto desejo teria Ele usado uma melhor defesa, até para Caifás e Pilatos, se uma melhor e mais razoável apologia se tivesse apresentado.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Do amor do Filho de Deus em querer morrer por nós - Santo Afonso de Ligório



1. “Eis aí o teu tempo, o tempo dos que amam... e te tornaste extremamente bela” (Ez 16, 8, 13). Quanto nós, os cristãos, somos devedores ao Senhor, por nos fazer nascer depois da vinda de Jesus Cristo! Nosso tempo não é mais o tempo do temor, como era o dos Hebreus, mas é o tempo do amor, havendo um Deus morrido por nossa salvação e para ser amado por nós. É artigo de fé que Jesus nos amou e por nosso amor se entregou à morte: “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2).

E quem poderia fazer morrer um Deus onipotente se ele não quisesse de livre vontade dar a vida por nós? “Eu entrego a minha vida... Ninguém a tira de mim, mas eu a entrego por mim mesmo” (Jo 10,17-18). Por isso diz S. João que Jesus na sua morte deu-nos a última prova que podia dar-nos do seu amor: “Tendo-os amado, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). Afirma um autor devoto que Jesus na sua morte nos deu a maior prova de seu amor, nada mais lhe restando depois disso a fazer para nos demonstrar quanto nos amava (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1).

Meu amado Redentor, vós vos destes todo a mim por amor e eu por amor me dou todo a vós. Destes a vida por minha salvação, eu por vossa glória quero morrer quando e como vos aprouver. Vós não podíeis fazer mais para conquistar o meu amor e eu, ingrato, entreguei-vos por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração: perdoai-me por vossa paixão e em prova do perdão concedei-me a graça de amar-vos. Sinto em mim um grande desejo de vos amar e tomo a resolução de ser todo vosso: vejo, porém, minha fraqueza, e vejo as traições que vos fiz: só vós podeis socorrer-me e tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que vos ame e nada mais vos peço.

2. Diz o Beato Dionísio Cartusiano que a paixão de Jesus Cristo foi denominada um excesso: “E falavam do excesso que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31), porque foi excesso de piedade e de amor. Ó Deus, qual é o fiel que poderia viver sem amar Jesus Cristo, se meditasse a miúdo na sua paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura, são todas chagas de amor, são dardos e chamas que ferem até os corações mais duros e abrasam as almas mais frias.

O beato Henrique Suso, para melhor imprimir em seu coração o amor a Jesus crucificado, tomou uma vez um ferro cortante e gravou em seu peito o nome de seu amado Senhor, e estando assim banhado em sangue dirigiu-se à igreja e prostrando-se diante do crucifixo, disse-lhe: Ó Senhor, único amor de minha alma, vede o meu desejo, quereria escrever vosso nome dentro de meu coração, mas não posso. Vós, que tudo podeis, supri o que falta às minhas forças e imprimi no mais fundo do meu coração o vosso nome adorável, de tal maneira que não possa ser mais dela apagado nem o vosso nome, nem o vosso amor.

“O meu bem amado é cândido e rosado, eleito entre mil” (Ct 5,10). Ó meu Jesus, vós sois todo cândido por vossa ilibada inocência, mas, sobre essa cruz, estais todo vermelho pelas chagas sofridas por mim. Eu vos escolho pelo único objeto de meu amor. E a quem amarei senão a vós? Que objeto entre todos posso eu encontrar mais amável do que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Eu vos amo, Senhor amabilíssimo, eu vos amo sobre todas as coisas. Fazei que eu vos ame com todos os meus afetos e sem reserva.

3. “Oh! se conhecesses o mistério da cruz”, disse S. André ao tirano. Ó tirano, queria ele dizer, se conhecesses o amor que Jesus Cristo te mostrou, querendo morrer sobre uma cruz para salvar-te, deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas para te entregares inteiramente ao amor deste teu Salvador. O mesmo deve dizer-se aos fiéis que crêem na paixão de Jesus Cristo, mas nela não meditam. Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo lhes testemunhou na sua morte, quem poderia deixar de amá-lo?

Diz o Apóstolo que nosso amado Redentor morreu por nós, para que com o amor que nos demonstrou na sua morte se fizesse senhor de nossos corações. “Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para ser senhor tanto dos mortos como dos vivos. Quer, pois, morramos, quer vivamos, somos do Senhor” (Rm 14,9). Portanto, quer morramos, quer vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus que a tanto custo nos salvou. Oh! que eu pudesse dizer, como o abrasado S. Inácio, mártir, que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: “Que venham sobre mim o fogo, a cruz, as feras, e toda a espécie de tormentos, contanto que goze de ti, ó Cristo” (Ep. ad Rom. c. V).

Ó meu caro senhor, morrestes para conquistar minha alma, e eu que fiz para vos adquirir, bem infinito? Ah, meu Jesus, quantas vezes eu vos perdi por um nada! Miserável! eu já sabia que com o meu pecado perdia a vossa graça, sabia que vos causava um grande desgosto e contudo eu o fiz. Consolo-me que tenho de tratar com uma bondade infinita, que se esquece das ofensas, mal um pecador delas se arrepende e a ama. Sim, meu Deus, eu me arrependo e vos amo. Perdoai-me e de hoje em diante dominai sobre este coração rebelde. Eu vo-lo entrego e a vós me dou inteiramente: dizei-me o que quereis, que eu quero fazer tudo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero contentar-vos em tudo: dai-me força e espero executá-lo.
 
4. Jesus com sua morte não cessou de nos amar; ama-nos ainda e procura-nos com o mesmo amor com que veio do céu à nossa procura e a morrer por nós. É célebre a fineza de amor que demonstrou o Redentor a S. Francisco Xavier, quando ele viajava. Durante uma tempestade, uma onda do mar havia-lhe roubado o crucifixo. Chegado o santo à praia, sentia-se triste e desejava recuperar a imagem de seu amado Senhor. E ei que vê um caranguejo vir ao seu encontro com o crucifixo alçado entre suas tenazes. Ele correu-lhe ao encalço e com lágrimas de ternura e amor o recebeu e estreitou ao peito. Oh! com que amor Jesus vai ao encontro da alma que busca. “Bom é o Senhor... para a alma que o busca”(Lm 3,25), isto é, para a alma que o busca com verdadeiro amor.

Poder-se-á pensar que possuem este amor aquelas que recusam as cruzes que o Senhor lhes envia? “Cristo não procurou agradar a si mesmo” (Rm 15,3). Cristo não buscou sua vontade e cômodos, diz Cornélio a Lápide, mas sacrificou tudo isso e sua própria vida por nossa salvação. Jesus, por amor de nós, não procurou prazeresterrenos, mas os sofrimentos e a morte, apesar de ser inocente. E nós que procuramos por amor de Jesus Cristo?

Um dia se queixava S. Pedro, mártir, estando encarcerado por uma injusta acusação que lhe fizeram, e dizia: Mas, Senhor, que mal fiz eu para sofrer esta perseguição? E o crucificado lhe respondeu: e eu que mal pratiquei para estar pregado nesta cruz? Ó meu Salvador, perguntais que mal fizestes? Muito nos amastes e por isso quisestes padecer tanto por nosso amor. E nós, que por nossos pecados merecíamos o inferno, recusaremos padecer o que nos enviardes para nosso bem? Vós sois todo amor, ó meu Jesus, para quem vos procura. Eu não busco vossas doçuras e consolações, busco só a vós e a vossa vontade; dai-me o vosso amor e depois tratai-me como vos aprouver.

Abraço todas as cruzes que me enviardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores: livrai-me unicamente do mal do pecado e em seguida sobrecarregai-me de todos os males. Tudo será pouco em comparação dos males que vós sofrestes por meu amor.

5. “Para remir o servo nem o Pai poupou o Filho, nem o Filho poupou-se a si mesmo”, diz S. Bernardo (Serm. de pass.). E depois de um tão grande amor para com os homens poderá haver alguém que não ame a esse Deus tão amante? Escreve o Apóstolo que Jesus morreu por nós todos, para que nós vivamos somente para ele e seu amor: Por todos morreu Cristo, para que os que vivem, não vivam mais para si, mas para aquele que morreu por eles (2Cor 5,15).

A maior parte dos homens, infelizmente, depois de um Deus haver morrido por eles, vive para os pecados, para o demônio e não para Jesus Cristo. Dizia Platão que o amor é o ímã do amor. E Sêneca afirmava: Ama, se queres ser amado. E como é que Jesus, que, morrendo pelos homens, pareceu enlouquecer de amor, na expressão de S. Cregório (Hom. 6), não conseguiu atrair a si os nossos corações depois de tantas provas de amor? Como é possível que amando-nos tanto não chegou a fazer-se amar de nós? Oh! se vos amassem todos os homens, ó Jesus meu amabilíssimo.

Sois um Deus digno de um amor infinito. Mas, meu pobre Senhor, permiti que assim vos chame, sois tão amável, fizestes e padecestes tanto para que os homens vos amassem, e quanto são os que vos amam? Vejo quase todos os homens aplicados em amar ou os parentes, ou os amigos, ou as riquezas, ou as honras, ou os prazeres, e mesmo os animais:mas quantos são os que vos amam, bem infinito? Ó Deus, são muito poucos, mas eu quero estar no número destes poucos, apesar de mísero pecador, que durante tanto tempo também vos ofendi, amando o lodo, separando-me de vós. Agora, porém, eu vos amo e vos estimo sobre todos os bens e só a vós quero amar. Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.

6. Ó cristão, diz S. Cipriano, Deus está contente contigo, chegando até a morrer para conquistar teu amor, e tu não estarás contente com Deus, visto que amas outros objetos, fora de teu Senhor? (Ap. Cont.) Ah, meu amado Jesus, eu não quero ter outro amor que não seja por vós: estou satisfeito convosco: renuncio a todos os outros afetos, o vosso amor só me basta. Sinto que me dizeis: “Põe-me como selo sobre o teu coração” (Ct 8,6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos ponho e peço-vos que vos ponhais a vós mesmo como um selo sobre o meu coração, para que fique fechado a todo outro afeto que não tenda para vós. No passado eu vos desgostei com outros amores, mas presentemente não há pena que mais me aflija como a recordação de haver com os meus pecados perdido o vosso amor, e no futuro “quem me separará do amor de Jesus Cristo?”

Não, meu amabilíssimo Senhor, depois de me haverdes feito conhecer o amor que me tivestes, não quero mais viver sem vos amar. Eu vos amo, meu amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração e vos entrego esta alma tão procurada e amada por vós. Pelos merecimentos de vossa morte, que tão atrozmente separou vossa bendita alma de vosso corpo, desprendei-me de todo o amor que possa impedir-me de ser todo vosso e de amar-vos de todo o meu coração. Maria, minha esperança, ajudai-me a amar unicamente o vosso dulcíssimo Filho, de tal maneira que eu possa repetir sempre, no decorrer de minha vida: Meu amor foi crucificado. Amém.

Oração de S. Boaventura

Ó Jesus, que por mim não perdoastes a vós mesmo, imprimi em mim a vossa paixão, a fim de que em toda parte para onde me volte veja as vossas chagas e não encontre outro repouso que em vós e em meditar os vossos sofrimentos. Amém.

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